.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Quinta-feira, 27 de Julho de 2017

GLOSANDO ALBERTINO GALVÃO II (?)

TEMPO II.jpg

 

TEMPO INSENSÍVEL



Soneto em versos de 11 sílabas (os meus preferidos)

 

A noite caíra encobrindo a cidade
E as poças que a chuva da tarde fizera!
Da minha janela soprava-me a espera
Enquanto embalava, no colo, a saudade

 

Inspirei, absorto, a fria humidade
Soltei o soluço que em mim retivera
Pensando que bom, oh meu Deus quem me dera
Ter hoje e agora quinze anos de idade

 

Mas sendo insensível o tempo não trava
A louca corrida que o relógio grava
E segue somando minutos e anos

 

Indif’rente a sonhos desejos e planos
Lá vai me lembrando que ele ao ir passando
De mim vai também minha vida levando.

 

Abgalvão (in Palavras com Alma)





BAIXOS-RELEVOS



(em versos de onze sílabas métricas)



“A noite caíra encobrindo a cidade”

Que em sombras desvenda seus becos, vielas,

Seus prédios mais altos e suas capelas

Que, de alvas, brilhavam sob a claridade.



“Inspirei absorta a fria humidade”,

Chorei sob um céu sem lua, nem estrelas,

Onde nada brilha... nem um rasto delas

No intenso negrume que agora me invade,



“Mas sendo insensível, o tempo não trava”

A lágrima em fuga que escorre e que lava

Memórias doridas, doridos enganos,



“Indif`rente a sonhos, desejos e planos”,

Prossegue incansável nas marcas que grava

E nem se dá conta de ter-me por escrava...





Maria João Brito de Sousa – 26.07.2017 – 14.45h

 

Imagem retirada do Google

 

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Quarta-feira, 26 de Julho de 2017

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE (cinquenta e nem sei quantos...)

Velha com gatos - google.jpg

 

COLHI CACHOS DE SOL

 

Colhi cachos de sol já à tardinha

E juntei-lhe uma fruta bem madura

Com água, gelo e gim. Fiz caipirinha

Que fui bebendo em copos de ternura

 

No olhar ficou em jeito de adivinha

O fulgor que o sol pôs nesta mistura

Senti-me ao fim da tarde uma rainha

Dourada como a mais bela escultura

 

Já a lua vestia de cambraia

Descalça entrei nas ondas duma praia

E apanhei nelas véus de renda fina

 

Cobri o rosto e andei sem rumo exacto

Pensamento vazio olhar abstracto

Nos pés descalços asas de menina

 

MEA

22/07/2017



***********

 

 

FAMILIAR(IDADES)...



“Colhi cachos de sol já à tardinha”,

Gomos de lua cheia e reluzentes

Bagos, desses que brotam duma vinha

De que outros se embebedam, desistentes...



“No olhar ficou um jeito de adivinha”;

Sabes, de saber feito, ou só pressentes,

De mim, quanto era meu? Que me mantinha

Assim, perseverante, entre indif`rentes?



“Já a lua vestia de cambraia”

Quando, no horizonte, o sol desmaia

E, fascinada, então, pelo poente,



“Cobri o rosto e andei sem rumo exacto”

Encontrando um irmão em cada gato

E, em cada cão sem dono, outro parente...





Maria João Brito de Sousa – 26.07.2017 – 11.25h

 

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Quarta-feira, 12 de Julho de 2017

AINDA GLOSANDO FLORBELA ESPANCA III

medo.jpg

 

RENÚNCIA



A minha mocidade há muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz...

Lá fora, a Noite, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
E como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela é como um rio de luz...

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ó minha mocidade toda em flor!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

 

 



AFIRMAÇÃO

 

“A minha mocidade há muito pus”

No cantinho das coisas já passadas

Que guardo, dia a dia acumuladas,

Porque só a memória as reproduz...

 

“Lá fora, a noite, Satanás seduz!”

Mas eu que, renegando almas penadas,

Observo as gentes tristes e cansadas,

Deduzo cada medo que as traduz;

 

“Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!”

- Só fecho os olhos quando, atordoada,

Possa o sono nublar-me a lucidez!

 

“Gela ainda a mortalha que te encerra!”

- E eu quero lá saber de quem me enterra,

Se morro por chegar a minha vez?!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 12.07.2017 - 16.26h



 

 

publicado por poetaporkedeusker às 16:48
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Domingo, 9 de Julho de 2017

EXPLICAR-VOS TUDO, NÃO SABENDO COMO...

sinestesia.jpg

 

Quero explicar-vos tudo e não consigo,

Pois falha-me a palavra, o verso manca

E quanto mais tentando ser-vos franca,

Mais sinto que as razões morrem comigo,



Pois se vislumbro o estro, esse estro antigo,

Logo a seguir bloqueio numa “branca”

E o poema que nasce, oscila e estanca

Como se fosse um estranho, um inimigo...



Sei estar precocemente envelhecida,

Falha de vista, pobre e tão dorida

Que nem vou tendo forças pr`a teclar,



Mas como hei-de afirmar que sou poeta,

Não sendo mais do que uma sinesteta

Que por tudo se deixa atrapalhar?





Maria João Brito de Sousa – 08.07.2017 -12.19h

 

 

 

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Sábado, 8 de Julho de 2017

GLOSANDO MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE XLVII (?)

NUVEM.jpg

 

FANTASIA DE NUVEM

 

Sou irmã dessa nuvem que chovia

Na tarde entristecida dum poeta

Escura e negra sem alma nem poesia

Escorrendo pelo bico da caneta

 

E quando o dia é escuro a noite fria

O luar é um fogo que inquieta

Fere-me os olhos, tira a fantasia

Eu viajo na cauda dum cometa

 

Pelas crateras negras desta vida

Em jeito duma névoa atrevida

Que tapa até a luz da lua cheia

 

E pela madrugada escorrem versos

Nos chuviscos que caem bem dispersos

Por entre velhas casas duma aldeia

 

MEA

5/07/2017



---------------------------------------

HÁ-DE PASSAR...



“Sou irmã dessa nuvem que chovia”

Sobre um chão sequioso e tão crestado

Que nem uma só planta ali nascia

Porque cada raiz tinha murchado



“E quando o dia é escuro, a noite fria”

E mesmo o céu parece ter secado,

Nem uma só semente brotaria

Se não fosse esse chão dessedentado...



“Pelas crateras negras desta vida”,

Tarde ou cedo, uma nuvem, comovida,

Há-de passar chorando, há-de passar,



“E pela madrugada escorrem versos”

Sobre os torrões inférteis que, submersos,

Desatam a florir, sem hesitar.





Maria João Brito de Sousa – 08.07.2017 – 09.55h

 

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