.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

CONVERSANDO COM FLORBELA - (Vidas e pontos de vista)

Florbela Espanca - retrato desenhado.jpg

 

A MINHA TRAGÉDIA



Tenho ódio à luz e raiva à claridade

Do sol, alegre, quente, na subida

Parece que a minh`alma é perseguida

Por um carrasco cheio de maldade!



Ó minha vã, inútil mocidade,

Trazes-me embriagada, entontecida!...

Duns beijos que me deste noutra vida,

Trago em meus lábios roxos a saudade!...



Eu não gosto do sol eu tenho medo

Que me leiam nos olhos o segredo

De não amar ninguém, de ser assim!



Gosto da Noite imensa, triste, preta,

Como esta estranha e doida borboleta

Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...



Florbela Espanca



In "Livro de Mágoas"



6749197_pgiD1.jpeg

 



UM POUCO DE MIM





Eu, em compensação, gosto dos dias,

Do Sol, do brando afago de uma brisa,

Do meu passo a deixar no chão que pisa

Um rasto de pequenas utopias...



Gosto das mil serenas melodias

Duma planta que cresce e se enraíza

E, tanto quanto sei, não sou juíza,

Nem de homens, nem de humanas bizarrias...



Nunca odiei ninguém, mas... raivas, tenho!

Há, com efeito, coisas que desdenho

Sempre que me pareçam ser nocivas;



Crenças humanas, contra as quais me empenho,

Quando pr`a analisá-las me detenho

E as sinto injustas, fúteis, destrutivas...





Maria João Brito de Sousa - 24.04.2017 - 13.49h





 

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Sexta-feira, 21 de Abril de 2017

MATÉRIA-PRIMA

13373039261.jpg

 

Não são de prata fina, ouro-de-lei,

De jade, madre-pérola ou diamante,

Mas da lava insurrecta, inquietante,

Do verbo em que te deste, em que me dei,



Os versos, tantos quantos semeei

No torrão duma urgência, a cada instante

Da premência tão mais desconcertante,

Quão mais distante o tempo em que os plantei.



Não espero o fruto frágil, rendilhado,

Trágico, maneirista ou delicado;

Quero o verbo assumindo o linho puro



Do fruto firme, forte e já trincado,

Da terra, quando a rasga cada arado,

E do trigo dourado e já maduro.





Maria João Brito de Sousa - 21.04.3017 -16.35h








 

publicado por poetaporkedeusker às 16:57
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Quinta-feira, 20 de Abril de 2017

LÍQUIDOS CAMINHOS...

Rob Gonçalves - Realismo Mágico.jpg

 



Ainda que ilusório este meu mar

E desmentida a sua força bruta,

Tudo faria pr´ó reconquistar,

Tudo faria, excepto dar-lhe luta,



Pois nunca lhe tentei sequer escapar

E toda me fiz mar nesta permuta

Dos líquidos caminhos por explorar

No mapa desta força que os recruta...



Se neste fim-de-Tejo me fiz gente,

Ao mesmo fim-de-Tejo entrego a vida

Tentando ser-me, ainda, água corrente



Que muito embora escassa e poluída,

Encara o mar que a espera bem de frente

E sempre em frente ruma, decidida.



Maria João Brito de Sousa - 20.04.2017 - 12.13h

 

Tela de Rob Gonçalves 

 

publicado por poetaporkedeusker às 12:08
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Sexta-feira, 14 de Abril de 2017

OUTRAS TEXTURAS...

texturas.jpeg

 

OUTRAS TEXTURAS
(da escrita)

 

A quanto escrevo, devo esta ventura
De ter um chão florido no meu peito!
Devo-lhe todo o sol de que me enfeito
Enquanto sobrevivo à noite escura

 

E porque a minha mente o não descura,
Mal na escrita me espelhe, assim me aceito,
Pois nessa posição, com algum jeito,
Posso-me ir conferindo outra textura…

 

Por vezes, na postura reflexiva,
Torno-me algo que evoca a coisa viva
Que aguarda o seu momento, a sua vez

 

De ser pura matéria criativa…
Mas se isto se mantém, disso me priva,
Porquanto me desdobra em mil porquês…

 

 

Maria João Brito de Sousa – 14.04.2017 – 16.00h

publicado por poetaporkedeusker às 16:44
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Segunda-feira, 3 de Abril de 2017

NUM SONETO...

 

6129871_WILJS.jpeg

 

Num soneto poria o que soubesse,

Se acaso me coubesse saber mais,

Tornando-o num cais que recebesse

Ideias que entendesse bem fulcrais.



Das guerras virtuais que o mundo tece

E entende quem conhece os seus iguais,

Saberei pouco mais do que parece

No pouco em que fornece alguns sinais.



Umas coisas, porém, conheço bem

E, a outras, bem melhor do que ninguém,

Porque por mim criadas e vividas,



Mas se entendidas porque as sinta alguém,

Tanto quanto eu as sei saberá quem

Sentiu tê-las vivido enquanto lidas...







Maria João Brito de Sousa - 03.04.2017 - 14.24h

 

publicado por poetaporkedeusker às 14:27
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Domingo, 2 de Abril de 2017

SENTIR COMIGO...

Sigmund - 1994- Março 2016.png

 

Foi na lagoa límpida e brilhante

Dos teus doirados olhos, companheiro,

Que vi passar-se um lustro todo inteiro

No reduzido espaço de um instante



E foi sentindo o teu sentir constante

Que até ao teu momento derradeiro

Soube profundamente verdadeiro

Esse teu ser que alguém jurou distante...



Ninguém sonhou sequer saber-te assim

E mais ninguém soube entender-me a mim

Como tu me entendeste, velho amigo,



Pois não é fácil ser-se, até ao fim,

Límpido como um lago de jardim

E, nessa limpidez, sentir comigo...





Maria João Brito de Sousa - 01.04.2017 -12.32h



Ao meu gato, Sigmund Freud

 

publicado por poetaporkedeusker às 09:07
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Sábado, 1 de Abril de 2017

PARTILHANDO RECEITAS COM MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE

Partilhando receitas.jpeg

 



RECEITA PARA UM POEMA

 

Juntei todas as letras, uma a uma

Misturei levemente sem bater

Com um pouco de sol e também bruma.

Num lugar ermo deixei-as crescer

 

Ao molde, defumei-o com caruma

Nas horas que me deu maior prazer

E, suavemente como quem perfuma 

A vida com amor, fi-lo nascer

 

Dispondo cada verso em seu lugar

Fui dando pinceladas de luar

De modo bem subtil e assaz discreto

 

Ficou por fim completo com o tema

Que lhe deu essa mágica suprema

Ao conferir-lhe a forma de soneto

 

 

MEA

16/03/2017

 

**************


A MINHA RECEITA



Nasce, por vezes fora de estação,

Um verso, o ingrediente principal

Que tempero, sem grande contenção,

De razão, de emoção, pimenta e sal.



Cozinho sem panela de pressão,

Pois mais me agrada um prato natural

Confeccionado à base de paixão,

Do que um "forçado" que me saiba mal...



Tem, acima de tudo, de ser são!

Se a confecção me sabe a artificial,

Desprezo, no final, a refeição,



Volto ao fogão, preparo algo opcional,

Mais natural, de fácil digestão

E cheio de tensão... mas musical.





Maria João Brito de Sousa - 31.03.2017 - 11.01h

 

publicado por poetaporkedeusker às 08:14
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