.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2012

NOS TEUS OLHOS, MIL SÓIS...

(Em decassílabo heróico)

 

Quando o sol nos teus olhos se reflecte

E  pasmos, inocentes, me procuram,

Nas pupilas, quais setas que perfuram,

Rendido, aquece o gelo e se derrete…

 

Cada olhar, feito sol, me compromete

Vazios e escuridões, quando perduram,

E quantos medos restem se me curam

Nesse olhar que os desmente, se os repete…

 

Há sóis nas finas setas que me lanças,

Há notas de harmonia, há ternas danças,

Há silêncios solar´s, serenos, castos...

 

Há meu felino irmão, mil setas d`oiro

Que, em cúmplice feitiço, em suave agoiro,

Me devolvem, brilhando, os dias gastos…

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 30.12.2012 – 15.11h

 

Reformulado - Maio 2016

 

 

Ao Sigmund Freud, o mais amado dos meus amigos gatos

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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

SONETO SEM DESTINATÁRIO


(Em verso eneassilábico)

 

Na aridez de passeios e estradas

Plantei bagas de sonhos maduros

Em prodigalizando, às punhadas,

Mil prenúncios de claros futuros…

 

Colhi, dessas ardentes jornadas,

Impropérios, por vezes tão duros

Que doíam como as chicotadas

Do furor dos traidor`s mais impuros…

 

Pudesse eu outra vez percorrer

Quanta estrada corri no passado,

Voltaria a plantar e colher

 

Mil denúncias e a dor de o saber…

Mas bem sei que teria voltado

Se isso me fosse dado a escolher…

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 01.12.2012 – 17.30h

 

IMAGEM - Pintura de Álvaro Cunhal

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Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012

SONETO À MINHA LOUCA, LOUCA INSPIRAÇÃO...

(Em decassílabo heróico)

 

Venho tarde e más horas porque venho
de um momento lunar que desconheces
no despontar da teia em que te teces
há mais do que a noção que tens de “antanho"

 

Se firo, qual “maleita” ou corpo estranho
e me alheio do tanto que padeces,
é por puro desdém das gastas preces
que te confesso já, nego e desdenho!

 

Matéria, anti-matéria… o que me importa
se, ao ser razão de ti, me quedo absorta
pr` assombrar-te depois, sem mais razão,

 

E, sempre que me julgues quase morta,
te invadir, derrubando a frágil porta
que usaste pr`a fechar-me o coração?

 

 

Maria João Brito de Sousa – 18.12.2012 – 02.47h

 

NOTA – Soneto reformulado a 20.06.2015

 

IMAGEM - "Mulher em Molho de Luar", Maria João Brito de Sousa - 1999

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Sábado, 15 de Dezembro de 2012

AINDA O MAR...

    (Em decassílabo heróico)

 

Depois do mar, nasceu um mar ainda,

Que, a par desse primeiro, o transcendeu…

E a gaivota a sondar se havia céu

Que soubesse albergar maré tão linda…

 

Com ela, uma canção, muito bem-vinda,

Num cravo ocasional que alguém lhe deu,

A brotar de um fuzil que floresceu

Pr`a sugerir marés, se o mar se finda…

 

E… venham lá gaivotas, venham cravos,

Venham punhos erguidos, venham bravos,

Gritar-nos que a maré não foi esquecida!

 

Em ficando a maré comprometida,

Logo outra irromperá, jamais traída;

Somos filhos de Abril, sem reis nem escravos!

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 14.12.2012 – 21.17h

 

 

NOTA – Sendo certo que, no soneto clássico, a disposição dos versos rimados das duas estrofes finais é bem mais flexível do que nas restantes duas estrofes, permiti-me, no entanto, uma certa e talvez excessiva liberdade na rima final deste soneto em particular[CCD-DDC].

 

 

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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

SONETO MUITO FANTASMAGÓRICO...

 

(Em verso de nove sílabas métricas)

 

Vês paredes de uns prédios já gastos…

De uma delas, de cinza tingida,

Brotam, vagos, soturnos e castos,

Mundos mil, estranhas formas de vida…

 

Se a magia nocturna dos astros

Lhes confere aparência fingida,

Serão barcas, sem remos, nem mastros,

Sobre um mar sem prelúdio ou saída…

 

Se, iludida, a memória se exalta,

Reconhece os perfis, nel`s confia

E quer crer no que aos olhos ressalta,

 

É tal qual como se almas penadas,

No silêncio dessa hora tardia,

Se apossassem das pedras… coitadas…

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 27.11.2012 – 15.58h

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

SONETO MUITO SURREAL, SÓ PARA DESCONTRAIR... OU NEM POR ISSO...

(Em verso eneassilábico)

 

Trago a louca impudícia das horas

A tanger-me em violinos traídos

E a surpresa das aves canoras

Sobre arames farpados floridos,

 

Uso abismos sem fim como escoras

Dos mais altos castelos erguidos

Aos dilemas de amor das amoras,

Ou à dor de uns piratas vencidos!

 

Conquistei terra e mar aos meus medos,

Moldei estátuas nas chamas de velas,

Dediquei-me a aprender, dos penedos,

 

A dureza - o seu ponto mais forte... -

E, encontrando maleita, ou sequelas,

Proporciono, ora alívio, ora… morte!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 26.11.2012 – 21.47h

 

 

IMAGEM - Tela de Oleg Shuplyak

Reformulado a 25.11.2015

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Domingo, 2 de Dezembro de 2012

TEMPESTADE(S) - Soneto em verso de nove sílabas métricas dedicado à minha ligação boicotada

Repensado este estranho argumento

Como a última nau de quem sonha,

Serei sempre implacável… nem tento

Desculpar-me ou mostrar-vos vergonha…

 

Sou do mar, sou da terra e do vento,

Sou selvagem, por vezes, medonha

Se me engendram de negro ou cinzento

Vergastando a maré mais risonha…

 

Quantas vezes não fui tempestade,

Força bruta, invencível, cruel,

Flagelando – porém, sem maldade! –

 

Edifícios da vossa cidade,

Vossos rios, vosso mar, vossa pele,

Sem curvar-me ante a vossa vontade?




Maria João Brito de Sousa -02.12.2012 – 14.15h

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