.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

O LEITO DE UM RIO POR DENTRO DAS HORAS

É por dentro das horas que desfio

O rosário das queixas que não faço

Que esta fome de sol, que por cá passo,

Me mina de incerteza. E faz-me frio.

 

O abismo que se cava em cada rio

Que rompe a terra mãe no seu abraço,

Traz, no seu leito fundo, o puro traço

De quem, deixando-se ir, não desistiu

 

Pois, cada vez mais vão dentro das horas

Que voam renegando as mil demoras

Que o ciclo natural sempre despreza,

 

Se esse rio perceber que o sonho existe,

Conquista o seu direito a morrer triste,

Desvenda uma insuspeita natureza…

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 26.10.2011 - 15.20h

 

Reformulado a 2.11.2015

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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

O FRUTO DE UM MAR OUTRORA PROÍBIDO

 (Soneto em verso eneassilábico)

 

Quis lembrar-me do mar que trazias

A pender-te da ponta dos dedos,

Prometendo, acenando aos mil dias

Que eu roubava à avareza dos medos

 

E colhi, desse mar que escondias,

No remoto pomar dos segredos,

O mel doce, que em fruto of`recias

D´entre mil, extemporâneos, azedos…

 

Houve um tempo redondo e magoado

Em que o fruto minguava escondido,

Definhando de tão resguardado

 

Na redoma do que é proibido,

E se eu nunca o tivesse encontrado,

Talvez nunca o tivesse perdido...

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 23.10.2011 – 15.00h

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Sábado, 22 de Outubro de 2011

O ABRAÇO DA LUZ DO MEU POENTE

Dei-te um mar inocente e virginal,

Mas telúrico e quase incandescente,

A brotar desse anseio universal

De ser muito mais mar do que era gente

 

E nesse mar selvagem, sensual,

Da onda mais revolta e mais urgente,

Não soubeste deixar-me outro sinal

Pr`além do gene instável da semente…

 

De quanto mergulhaste, vertical,

Assim que o sol, a pino, se fez quente,

Perdeu-se-te a mensagem, no final,

 

E, enquanto o sol se põe, mesmo à tangente,

Eu crio, noutro mar mais ficcional,

Cada raio de luz do meu poente...

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 22.10.2011 – 15.00h 

 

 

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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

A TODOS OS RESISTENTES QUE PASSARAM PELAS PRISÕES DO FASCISMO

Foi num muro em que, sem liberdade,

Acoitado entre as lajes, tão frias,

Tu escreveste a palavra VONTADE

Conquistada ao granito dos dias!

 

Foi a tua resposta à maldade,

À traição e às demais vilanias

De quem queria apagar a VERDADE

Desse muro em que, ousado, a escrevias!

 

Foram tantas palavras negadas

Que a garganta guardou da denúncia

Dos que a queriam gritada entre os muros,

 

Quanto as dores, como pedras, caladas

Na nobreza da tua renúncia,

Semeando os teus sonhos mais puros!

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 21.10.2011 - 13.48h

 

 

Imagem retirada da página que a Wikipédia criou para o 25 de Abril de 1974

 

 

NOTA - Soneto de nove sílabas métricas

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Domingo, 16 de Outubro de 2011

UM TUMULTO A SUBIR DAS PROFUNDEZAS

 

 

Hoje, nem bem, nem mal, nem coisa alguma…

Nem o silêncio impôs a reflexão,

Nem um murmúrio só, dizendo "não"

Às minhas mãos cerradas como bruma

 

E dispersa-me a onda nesta espuma

Como se, ao ser negada uma razão,

Tudo se reduzisse à dimensão

Das lutas que se perdem, uma a uma…

 

Hoje… nem bem, nem mal! Ninguém diria

Que ontem saiu à rua a rebeldia

Vestida com as cores de mil certezas,

 

Porque hoje, ao acordar, nada se ouvia

(... mas, quem estivesse atento, sentiria

um tumulto a subir das profundezas…)

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 16.10.2011 – 16.32h

 

 

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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

SONETO A UM VERSO QUE FICOU POR ESCREVER

 

 

Usado e gasto ou novo e displicente,

Tenho-te aqui, neste onde que nem sei,

No poema em que te prendo, esse imprudente

Que te irá dar bem mais do que eu te dei,

 

Mas perco-te depois, num gesto urgente

Em que abro mão daquilo que engendrei,

E vendo-te voar – quem me desmente? –

Descubro que não mais te encontrarei...

 

Quem és, quem és, se nem mesmo eu souber

Prender-te nos meus braços de mulher

Dando uma voz à voz que tu não tens?

 

Serás verso que teima em se perder,

Ou talvez sejas tudo o que eu quiser

Por mais que eu nunca saiba de onde vens...

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 10.10.2011 – 21.11h

 

 

 

Imagem retirada da Internet, via Google

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Sábado, 8 de Outubro de 2011

VIDA A VIDA

Enquanto a vida passa pela vida

Muitos, na luta eterna, reconhecem

Que as teias desta vida se nos tecem

Conforme a voz que temos seja erguida...

 

Tantos de nós, descendo uma avenida,

Procuramos dar voz aos que a merecem

E damos voz à voz dos que se oferecem

Pr`a dar voz à verdade indesmentida

 

Que vida a vida se ergue na cidade

Reconstruindo a solidariedade

Essa  que já mil vezes nos uniu

 

E é contra a voz que abafa a nossa voz

Que, erguidos desse chão, não estamos sós

Contra quem, pr`a roubar-nos, nos mentiu!

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 07.10.2011 – 18.37h

 

 

NOTA - Desde esta madrugada, impossibilitada de aceder ao meu mural do Facebook e à maioria dos sites da net, desejo, do fundo do coração,

uma GRANDE concentração a todos os amigos da ANIMAL e de todos os grupos e associações que hoje se lhes juntem, no Rossio, para dar voz a todos os animais.

TODOS DIFERENTES, TODOS ANIMAIS!

 

 

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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011

CIDADE SEM SENTIDO(S) - Soneto de nove sílabas métricas

 

Se a Cidade contasse os segredos

Das janelas fechadas dos dias

Quantos rostos e mãos não verias

Nas cortinas já gastas dos medos,

 

Quantos corpos em estranhos folguedos,

Quantas camas desfeitas, já frias,

Quantas mesas de pinho vazias

De uns pedaços de pão, mesmo azêdos?

 

Se a Cidade pudesse falar

E se erguida do chão, a gritar,

Rebentasse em protesto incontido

 

Levantando o seu punho no ar...

(... ah, Cidade que eu tento inventar,

nem eu própria sei dar-te um sentido!)

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 05.10.2011 - 15.03h  

 

 

 

Imagem retirada da Internet, via Google

 

 

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Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

COM A VOZ QUE TRAZEMOS NAS MÃOS

Nestes punhos magoados que se cerram

Por causas bem mais fortes do que a dor,

Eu trago estas palavras que se elevam

Como as de outro qualquer trabalhador

 

E, se morrer sem voz porque me enterram

Tentando refrear o meu ardor,

Jamais terei traído os que delegam

A voz na voz de quem lhes dá valor!

 

Ah, nunca mais o medo a meias-vozes!

Nunca mais submissão aos tais algozes

Que estão escavando abismos financeiros

 

Entre um punhado de bem “recheados”,

E os restantes milhões de injustiçados

Que o capital transforma em prisioneiros!

 

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 04.10.2011 – 02.18h

 

 

IMAGEM DA MANIFESTAÇÃO DA CGTP DE 1 DE OUTUBRO DE 2011, retirada da net, via Google

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