.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Sábado, 27 de Agosto de 2011

ESTRELA

 

Se outra estrela, além daquela

Que me conduz, me ilumina,

Colidir, algures, com ela

Tentando mudar-me a sina,

 

Morrerei por minha estrela

Porque ninguém me confina

A estrelas diferentes dela

Sob ordens de outra doutrina!

 

Morro dizendo que não

A qualquer imposição

Que não venha desse rasto

 

E do brilho milenar

Que me obriga a poetar

E me diz que assim me basto!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 27.08.2011 -15.31h

 

 

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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

ASSIM É O POEMA

 

Numa noite qualquer de um qualquer Verão

Vislumbrei uma estrela que passava

E, fixando esse rasto que brilhava,

Fiz dele sopro de voz, poema em vão

 

Poema só não passa se lhe dão

A cuidada atenção de quem o escava

E é, tal qual um vulcão rompendo em lava,

Um grito, um brilho intenso, uma explosão

 

Mas, tanto a lava quanto a estrela errante,

Podem surgir-nos a qualquer instante,

Abalar-nos, tocar-nos de repente

 

E assim é o poema quando surge;

Uma força impensável que nos urge

Como urge o alimento a toda a gente…

 

 

Maria João Brito de Sousa – 25.08.2011 – 14.20h

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Domingo, 21 de Agosto de 2011

O ELOGIO DO MÉTODO

Minh`alma é toda feita da inocência

De eternas e selvagens rebeldias

Nos pontuais arbustos de impaciência

Que florescem nas margens dos meus dias

 

Cultivo, sem cessar, inteligência,

Privilegio sempre as harmonias

E procuro entender – venero a ciência –

Os frutos que colher por estas vias

 

Quando algo me transcende, eu não desisto

E guardo pr`a mais tarde o nunca visto

No baú dos meus sonhos de menina

 

Mais tarde, posso, ou não, achar respostas

[se as coisas forem sendo assim dispostas

no tempo a que esta vida nos confina…]

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 21.08.2011 – 15.18h

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Sábado, 20 de Agosto de 2011

O SEU DIREITO A FALAR - Sonetilho

Amigo, são simples telas,

Todas de um branco lunar,

Que vês azuis e amarelas

Depois de eu as trabalhar

 

Se souberes olhar pr`a elas

Com olhos de procurar,

Verás que todas são selas

De um corcel por inventar

 

São óleos e aguarelas

Das ondas deste meu mar

Que, tal como as caravelas,

 

Partiram pr`a conquistar,

Contra todas as procelas,

O seu direito a falar

 

 

Maria João Brito de Sousa – 20.08.2011 – 13.50h

 

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Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

ENVOLVÊNCIA&ALARME - Sonetilho

 

Não importa de onde venha

Se toda inteira me envolve

Numa carícia tão estranha

Que só a escrita a resolve

 

E, de um só golpe me apanha,

De um só golpe me dissolve

Numa languidez tamanha

Da qual já ninguém me absolve,

 

Que mais valera calar-me

Sem sequer tentar explicar

Por que razão hei-de eu dar-me

 

Numa envolvência sem par

Sem que soe o tal alarme

Que me costuma alertar…

 

Maria João Brito de Sousa – 17.08.2011 – 19.21h

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Domingo, 14 de Agosto de 2011

FLORES-POETAS ou AS ETERNAS ANALOGIAS - Sonetilho

 

Silêncio. Lá fora, as flores

Dos canteiros do jardim,

Não qu`rendo saber de mim,

São, contudo, os meus amores...

 

Corolas de muitas cores

E formatos sem ter fim,

Parecem lembrar, assim,

Que há mais sorrisos que dores

 

Silêncio! Uma flor morreu,

Mas mil milhões desabrocham

No segundo que se segue

 

Àquele em que a mão escreveu

Sobre o que elas revelaram…

Flores-poetas? Nunca o negue!

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 14.08.2011 – 21.48h

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Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011

A CADA DIA A SUA ETERNIDADE

 Já mal recordo as águas, muito claras,
Das nascentes das serras percorridas
Sobre penhascos, sobre duras fragas,
Em cada passo gasto nas subidas

Já quase nem relembro as madrugadas
De todo o começar de tantas vidas
Se ato, por cada verso, estas amarras
Às colunas do cais de outras partidas,

Mas, à noitinha, é como se tambores
Semeassem no ar todas as cores
Num reboar de notas sincopadas!

Dormindo, eu que sou “tu”, sou tanta gente
Que não tendo passado, nem presente,
Adivinha o porvir destas passadas …

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Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011

UM SORRISO POR PORTUGAL

 

 

Sorrio por esta terra que deu vida

À poesia que enche as minhas veias

Onde uma alma marítima e rendida

Se me transmuta em espuma sobre areias

 

Sorrio por este mar, pela partida,

Pela insurgência destas marés cheias

Que, inevitavelmente, dão guarida

Às naus que em mim renascem como ideias

 

Sorrio por este céu de azul vestido,

Por cada rio de prata a desaguar

No estuário do sal que lhe é devido,

 

Por este manto de ouro e de luar,

Por quanto dele em mim fizer sentido

E pelo que eu, sorrindo, recriar…

 

 

Maria João Brito de Sousa – 10.08.2011 – 12.15h

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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

CONVITE PARA UMA DESGARRADA

 

Aqui sou o que sou! De minha graça,

Poeta e portuguesa - quanto baste! -

E antes que um poema se me gaste

Nalgum prévio receio de ameaça,

 

Esqueço o tanto que sorte me anda escassa

E recrio este jogo de contraste

Sem ter em atenção quanto contaste,

Mal uma estrofe acena ou se me enlaça!

 

Mas se o verso se atrasa ou se um poema

Encontra, no caminho, algum problema

E me obriga a ficar pr`aqui calada,

 

Não entro em desespero… ele há-de vir

Assim que a rima espreite e que, a sorrir,

Me convide a entrar na  desgarrada…

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 08.08.2011 - 18.00h

 

 

IMAGEM - Tela de Paula Rego

 

Reformulado a 22.10.2015

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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011

PASSA POR LÁ UM RIO...

 

Passa por lá um rio feito de anseios,

De águas mansas, serenas, cristalinas,

Visitado por aves que, em gorjeios,

Vêm beijar as flores mais pequeninas,

 

Um córrego onde posso, sem receios,

Banhar-me como todas as meninas…

Minh`alma, pouco dada a devaneios,

É nel` que encontra aspirações divinas…

 

Passaram tantos rios e só naquele

Soube o que era sentir, à flor da pele,

A estranha glória de não ter idade

 

Porque ele passa e passo eu com ele,

Mas nunca o esquecerei porque foi nele

Que fui esboçando a minha identidade...

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 05.08.2011 – 15.13h

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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011

QUE POSSO EU?

 

Que posso contra a força da consciência

Se ela me eleva a mão, me exalta a voz,

Se me impõe muito além do que é prudência,

Me lança ao mar na casca de uma noz?

 

Eu nada posso, ó clara transparência,

E entrego-te este leme quando, a sós,

Confio – quem o sabe? – na clemência

Daqueles que chegarão depois de nós…

 

Se pedes muito mais que o evidente,

Se assim vais empurrando, sempre em frente,

A vaga das palavras que aqui escrevo,

 

Se, estando em mim, tu és de tanta gente…

Como posso negar-te o meu presente

Que lega no futuro o sal que eu devo?

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 03.08.2011 – 20.18h

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