.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

A PINTORA

Devorava sentidos proíbidos

Na captura das formas e das linhas.

Falava pouco ou nada com vizinhas.

Dizia-se da cor dos seus vestidos.

 

Abraçava-se aos gestos repetidos

Que em si amontoava, quais sardinhas,

Recriando ilusões e adivinhas

Onde antes eram vãos os seus sentidos.

 

Criava como quem retrata a vida

Que antes já conheceu, que foi vivida

Por outros que ela nunca conheceu

 

E roía os caroços de outros frutos

Supondo partilhar os seus produtos

Até ao próprio dia em que morreu.

 

 

Pormenor de "Escorço - Grande Pintora a Lápis de Cor"

 

Maria João Brito de Sousa, 2007

 

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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

A DISFUNCIONANTE

Ia por ali fora, cabisbaixa,

Vivendo por viver, sem já ter meta,

Deixando atrás de si, em linha recta,

Pegadas que gravara numa faixa.

 

Não estava aberta, nem à caridade,

Nem ao fluir do seu imaginário...

Vivia, no momento, o seu contrário

Caminhando por força de vontade.

 

Funcionava tão mal, enquanto gente!

Perdera os meios de seguir em frente

Na azáfama, na dor, no burburinho...

 

"Disfuncionantemente" prosseguiu,

Embrenhou-se, por fim, nesse vazio

Que tão longe a levara do seu ninho...

 

 

Imagem retirada da internet

 

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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

O CAMINHANTE (A very, very short-story)

Passou por este espaço e quis parar...

Ficou refém do espaço, por momentos,

Olhando com uns olhos muito atentos

Em busca da razão que o fez ficar.

 

Passou por este espaço e, sem saber,

Passara por si mesmo uma vez mais

Sem que os olhos captassem os sinais

Que este espaço lhe dera a conhecer...

 

Depois foi normalmente à sua vida.

Não fora a sensação de uma partida,

Jamais se lembraria deste espaço...

 

Tem dias em que passa e já nem olha,

Em nenhum deles, porém, a sua escolha

Dependeu da vontade ou do cansaço.

 

Imagem retirada da internet

 

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Domingo, 28 de Dezembro de 2008

O RASTO DO COMETA II

Pretérito de mim neste imperfeito

Que é condição de ainda andar por cá,

Procedo á criação do não há,

À minimização do meu defeito...

 

E, nesta dimensão de Causa-Efeito,

Traçando o meu caminho ao Deus-dará,

Mais-pedra, menos-pedra... eu volto já!

Este caminho ìnda não está direito...

 

Mais-obra, menos-obra, eu vou passando

Sem saber se acabei, sem saber quando...

Gente feita de barro é mesmo assim,

 

Por cá vamos deixando o nosso rasto!

Vislumbro um horizonte e não me afasto

Até que alguém venha afastar-me a mim...

 

 

Imagem retirada da internet

 

 

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Sábado, 27 de Dezembro de 2008

TRÊS SONETOS DO DIA

 

A CEIA DO POETA III

 

Se sou a mais pequena entre os pequenos

(ainda mais pequena que o comum...),

Se vivo neste absurdo desjejum

Das palavras que escrevo em mil cadernos,

 

Ao vislumbrar-me, assim, entre os eternos,

Senti-me, por segundos, ser mais um

E, louca de alegria, bebi rum

Por copos inventados nos infernos...

 

E fiquei-vos tão grata - embora louca-

Que já nem sei expressar essa medida,

Que já nem sei dizer como fiquei!

 

Desfeita em mil palavras, fiquei rouca...

Embriago-me, invento outra bebida,

E tento dar-vos mais que o que já dei!

 

 

SONHAI!

 

Crescei, multiplicai-vos e sonhai!

Roubai maçãs da árvore da vida!

Chorai os que são vossos, na partida!

Sede vós mesmos, mas acreditai!

 

Se tendes sede ou fome, protestai!

Se vos faltar amor, perdão, guarida,

Procurai outro peso, outra medida,

Encontrai novos rumos, viajai!

 

Ide ao fundo do mar de cada mar!

Subi, subi além de cada estrela,

Descobri tudo, tudo o que puderdes!

 

A vós ninguém vos pode condenar

Porquanto o vosso sonho é quem nivela

A dimensão de tudo o que fizerdes!

 

 

BOAS FESTAS!

 

Desejo-vos pão, livros e saúde,

Para o ano que está quase a chegar!

E alegria e esp`rança a despontar

No momento em que algum se desilude...

 

Desejo-vos amor e lucidez

E sonhos! Muitos sonhos criativos!

Que possais criar sempre, enquanto vivos,

Aquilo que pensais ser só "talvez..."

 

Que possais guardar bem, dentro de vós,

A criança que existe em toda a gente

Que será sempre a vossa companhia...

 

Que possais sempre ouvi-la e dar-lhe voz,

Que saibais aceitar o seu presente,

Que tenhais sempre um pouco de alegria!

 

 

Imagem retirada da internet

(Portugal dos Pequenitos - Coimbra)

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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

PERCURSO IV

São milénios, são anos, são momentos,

São traços como palavras ou rugas,

São os inevitáveis, são as fugas

Às concretizações e aos eventos...

 

São as desconstuções, os desinventos,

Os verbos que esqueceste, mas conjugas,

A força que, não tendo, ainda alugas

Em troca do que calas em lamentos...

 

São ondas do teu mar, essas marés

Que te tornam naquilo que tu és

Sobrando o que é comum a toda a gente...

 

São as recordações dos teus sentidos,

Memórias, livros lidos e relidos,

O que de ti ficar daqui pr`á frente.

 

 

A S.

 

imagem retirada da internet

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Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

THE LITTLE DRUMMER BOY - Bring your wounded lambs...

 

 

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Terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

LINEARIDADE III

Existe, em cada cor, um mar de linhas.

Umas são longas, outras são quebradas...

Enérgicas, contudo, e bem traçadas

Tão negras como voos de andorinhas...

 

De cada linha nasce a cor dif`rente.

Por vezes, em "nuance", aclaro o tom...

Nem sempre o menos claro é menos bom

Porque realça a luz, omnipresente.

 

Desenham-se momentos, atitudes,

Entre os defeitos surgem as virtudes

Em traços como punhos, como gritos...

 

São gritos em silêncio... como as cores,

Como os sorrisos, como os desamores.

Como tudo o que existe. Eu facilito...

 

 

Maria João Brito de Sousa, 1999

 

 

 

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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

LINEARIDADE II

Não fora a compulsiva, estranha urgência

De explicar-me `inda mais do que me sei,

Não fora eu não ter dono, nem ter lei

Para além desta absurda transparência,

 

Não fora esta assumida incoerência

De eu qu`rer dar muito mais do que já dei

E sentir muito mais do que pensei

Em subversões da própria inteligência,

 

Não fora eu ser assim [embora louca...]

Este pr`além de mim [mas coisa pouca...]

Que sempre vai pedindo mais e mais...

 

Não fora a linha em que me envolvo, inteira,

[maleável embora rotineira...]

Como me encontraria entre os demais?

 

 

Maria João Brito de Sousa, 1999

 

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Domingo, 21 de Dezembro de 2008

LINEARIDADE

Por fora da palavra eu traço a cor,

Por dentro é que preencho a cor do traço.

Linear, como tudo o que aqui faço,

Defino-me num estranho, infindo amor.

 

Envolvo numa linha definida

A pálida brancura e seu contraste

E não há envolvência que me baste

Pr`a me tornar segura, protegida...

 

Mais linhas, mais abrigos, maiores pontes...

E torno à cor que jorra de mil fontes

Porque tudo, afinal, é cor e luz!

 

A golpes de pincel já mergulhei

No mesmo mar de cor em que engendrei

Tudo o que é linear e me traduz.

 

 

Maria João Brito de Sousa, 1999

 

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Sábado, 20 de Dezembro de 2008

O FANTASMA DO POEMA

Nasci deste poema que fizeste.

Tu olhas-me e não queres acreditar

Mas eu sou, na verdade, esse pulsar

Do momento da escrita em que te deste.

 

Venho lá bem do fundo do teu ser,

Sou a ponte que leva a tudo o mais,

Trago anseios, urgências animais,

De partir e de dar-me a conhecer...

 

Não quero nem morada, nem fronteiras!

O corpo é para ti que és pequenina.

Eu "sou", sem dimensão de tempo ou espaço!

 

Saltei das tuas mãos, entre canseiras...

Do fundo dos teus sonhos de menina,

Da estranha imensidão do teu cansaço!

 

 

Imagem retirada da internet

 

 

Acabadinho de nascer para :

 

http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

 

NOTA: Este poema não foi ficcionado, não senhor! Surgiu-me com a rapidez de um vendaval e com a inevitabilidade de um facto consumado, avisando que iria para a FÁBRICA DE HISTÓRIAS. E garanto que não posso jurar que me tenha lembrado de dar rédea solta à imaginação!

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Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

AB INITIO

Tudo tem uma cor e tudo é cor!

Palavras, letras... números também!

Cada um é a cor da cor que tem

E dispersa-se em ondas de calor.

 

Nem sempre o negro é mau, nem sempre é dor!

Do negro que tracei nasceu, além,

Uma pérola branca a que ninguém

Pode dizer que não terá valor...

 

O "um" sempre foi negro, o "dois" cinzento,

O "três" é amarelo, ao "quatro" tento

Descrever-lhe esse azul mal definido...

 

O "cinco" é bem vermelho, o "seis" é rosa...

São a minha paleta, o verso, a prosa...

E todo este "ab initio" faz sentido...

 

Maria João Brito de Sousa, 2002

 

 

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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

UM FANTASMA NO PINHEIRO DE NATAL

Era o corpo-presente de uma ausência!

Perfeitamente nítido na sala,

E vestido a rigor... traje de gala

Num lençol de alva e pura transparência.

 

Mas lá que era fantasma... ah, isso era!

Do alto do pinheiro de Natal,

Olhou-me e acenou. Não me fez mal.

Disse-me: - Noutro Natal! Eu fico à espera...

 

Sorri-lhe também eu, disse-lhe adeus,

Sumiu-se por caminhos muito seus

E eu ali fiquei, muito orgulhosa...

 

Fora um presente que era só p`ra mim

Pois mais ninguém na casa o viu assim

Naquela noite gélida, invernosa.

 

 

Imagem retirada da internet

 

 Acabadinho de ficcionar para a http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

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