.UM BLOG SOBRE SONETO CLÁSSICO

Da autoria de Maria João Brito de Sousa, sócia nº 88 da Associação Portuguesa de Poetas, Membro Efectivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores - AVSPE -, Membro da Academia Virtual de Letras (AVL) e autora no Portal CEN, escrito num portátil gentilmente oferecido pelos seus leitores. ...porque os poemas nascem, alimentam-se, crescem, reproduzem-se e (por vezes...) não morrem.
Domingo, 30 de Novembro de 2008

OS QUARTOS DA LUA

Nestes quartos-de-luz  da lua-cheia

Desfaço-me e, desfeita, eu pago o preço

De ter virado a vida do avesso

Cozinhando poemas para a ceia...

 

Divido-me e, assim, fico só meia...

Mas mesmo dividida eu não me esqueço

Que devo ser melhor que o que pareço

E nasce-me outra luz: a nova ideia!

 

Criança tonta, bato palmas, canto,

Cada ideia me traz um novo encanto,

Cada encanto me espanta mais e mais!

 

Criança tonta em louca correria

Pelos quartos da lua... que alegria

A de abraçar um mundo de ideais!

 

 

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Sábado, 29 de Novembro de 2008

ÁGUAS PROFUNDAS

Há águas profundas, traiçoeiras,

A inundar de mágoa o meu viver

E eu, que nada sei, fico a saber

As causas mais remotas e primeiras...

 

Aquilo que aprendi não tem fronteiras,

Vem da nascente onde começa o Ser,

Não acaba depois de se morrer

E não conhece atrasos nem canseiras...

 

É um deslumbramento vertical

A engendrar um mar dentro de mim

Que me enche, me extravasa e me conduz

 

Ao fundo do meu Ego, esse local

Aonde recomeça este meu fim

E se acende, de novo, a minha Luz...

 

 

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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

RUSH, RUSH, RUSH...

Torço o pé,

Estrago o sapato

Nestes passos que vou dando...

Piso o rabo do meu gato,

Fica desfeito o encanto!

 

Porque, afinal,

Os meus passos

São sempre passos demais,

Ao pisar o rabo ao gato

Torço o pé,

Estrago o sapato,

Fica o percurso estragado...

Por hoje não corro mais!

 

 

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Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

HUMANA CONDIÇÃO III

Se passas e não olhas nem reparas

No mundo que te pede o teu melhor,

Se dás indiferença em vez de amor

E se, passando, não ouves nem paras,

 

Se passas por passar, sem entender

Que não é por acaso que aqui estás,

Se só queres receber e nada dás,

Tens muito, muito ainda, que aprender.

 

Só dando tu recebes de verdade.

É no sonho que a nossa identidade

Revela a sua humana condição.

 

Só dando tu terás, inteiramente,

Decifrado o enigma da semente

Que o Universo pôs na tua mão.

 

 

"Operários" , Tarcila do Amararal, 1933

 

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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

MOMENTO EXTRACORPÓREO

Mar de mim, eu sou quem se partiu,

Quem se tentou colar mas se esqueceu

De viver uma vida que perdeu

Na chama que, inteirinha, a consumiu.

 

Aquela que a si mesma se impediu

De ser tudo o que foi quando nasceu,

A que, escondida, nunca mereceu

O caminho do Ser a que fugiu.

 

Vaivém das obras nuas dos meus dedos,

Das minhas disfunções e dos meus medos

E, depois, a certeza de ter visto

 

Aquilo que se passa e já passou,

As palavras, a voz do que sobrou...

Eu já nem sei se vivo ou se desisto!

 

 

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Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

O DESVIO e UM ESPAÇO AO PÉ DO MEU...

Porque me fica a boca assim amarga

E os olhos, embaçados, se me cerram

Se saio desta casa onde me entregam

Poemas e animais? A minha carga.

 

Porque será que me não sei mover

Senão neste meu espaço sem fronteiras?

Porque razão me sinto uma estrangeira

Onde possa estar longe de só ser?

 

E, no entanto, aonde os outros vão,

Onde as coisas se fazem é que são

Os espaços benditos pelo mundo.

 

E eu, mais uma vez, dobro a vontade,

Me curvo a essa estranha realidade

E me desvio da luz de que me inundo...

 

 

UM ESPAÇO AO PÉ DO MEU...

 

E faço e raspo e limpo e vejo e esfrego,

Depois volto a limpar e a esfregar

Neste vaivém do eterno-começar

Ao qual dedico a vida a que me entrego...

 

Já mal me sobra tempo pr`ó que escrevo

E quase nenhum tempo pr`a pensar!

Se tempo `inda me resta pr`a sonhar

Nenhum me sobra já pr`a ter sossego...

 

E escovo e subo e desço e nunca paro

Neste cuidar do muito que me é caro

E nem sei se parando `inda sou eu...

 

Nem mesmo enquanto durmo eu fico em paz!

Quase sempre um dos "meus" é bem capaz

De lutar por um espaço ao pé do meu...

 

 

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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

DAS FUNÇÕES DO SONHO II

Que estranha, alucinada projecção

Do ego de outro alguém morando em mim...

E que me importa, se me sinto assim

Eu mesma em projectada oposição?

 

Acordo. Foi um sonho. A sensação

De ter alguém comigo e estar assim,

Capaz de me calar e dizer: - Sim...

Quando eu mesma teria dito: - Não!

 

Um sonho... e, no entanto, eu aprendi,

Pensei e meditei (ou reflecti?)

Que tenho ainda coisas por fazer...

 

É a escola do sonho a funcionar,

A mostrar-me o caminho, a ensinar

Que o melhor desta vida é aprender...

 

 

"Sinfonia Sol-Lua com Remendo Verde"

Maria João Brito de Sousa, 2006

 

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Domingo, 23 de Novembro de 2008

QUEBRANDO O ESPELHO III

Quem sou? Que faço aqui? De aonde vim?

São estas as perguntas que me faço,

Tão banais que reflectem o cansaço

Da rotina geral que existe em mim...

 

Banais e, no entanto, eu nunca sei

O que hei-de responder-lhes! Quem sou eu?

Por que razão cá estou? Quem me prendeu

Ao mundo ficcional a que me dei?

 

E dei-me? Dei-me mesmo, ou quero dar-me?

E as perguntas em mim, a perguntar-me

Quanto tempo me resta de caminho...

 

- Pergunta ao espelho! - Alguém me sugeriu...

Foi então que o meu espelho se partiu

E me deixou a alma em desalinho...

 

 

"Puberdade" - Maria João Brito de Sousa, 1999

 

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Sábado, 22 de Novembro de 2008

A CAUSA

Se não fosse outro alguém, seria eu

A despertar a causa de outro alguém,

Mas como não fui eu... não foi ninguém

E a causa calou-se e pereceu...

 

Quantos "alguéns", pensando ser inútil

Abraçar um causa, pois que tantos

Pensam que ela não traz esses encantos

Que movem sua vida, porque fútil?

 

Não foi ninguém. Ninguém quis compromisso

Com a causa e a causa, apesar disso,

Acabou por nascer, foi abraçada...

 

Alguém se levantou, alguém clamou

- Eu creio nessa causa! À causa eu dou

O sonho, a vida, a morte... o tudo e o nada!

 

 

"Children`s Crusade" , Paula Rego

 

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Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

OS RESISTENTES

Embora nós não fossemos ninguém,

Embora nenhum mundo nos quisesse,

Embora nem um de entre nós tivesse

O domínio do Mal, a luz do Bem,

 

Embora neutros, homens como os outros,

Passíveis de fraquezas e paixões,

Embora uns tantos mais entre milhões,

Lúcidos quanto baste, embora loucos...

 

Embora apenas meio construídos

Na busca inabalável dos sentidos

Que nos prendem aqui e nos comandam,

 

Embora estranhos barros imperfeitos

Nós somos - quem diria? - esses eleitos

Que insistem, que não vergam nem debandam.

 

 

 

Tela de Vincent Van Gogh

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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

TEMPERO DE MAR

mar luar.jpg

 

Mar dos luares de prata sobre a areia,

Dos búzios e das conchas nacaradas,

Das algas sob os pés, em caminhadas

Que vão da baixa-mar à maré cheia...

 

Mar de ouro branco e pérolas de luz

Como os grãos das areias que em ti piso...

Uma vez mais me perco no sorriso

Com que a tua brancura me seduz...

 

Eu perco-me e perdida encontro em ti

A criança que em mim nunca perdi

No percorrer da areia intemporal

 

E dissolvo-me em ti e sou tão tua

Quanto a brancura dessa branca lua

Como se, em vez de mim, fosse o teu sal...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 20.11.2008 - 13.54h

 

 

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Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

QUEBRANDO O ESPELHO II

Depois de quebrado o espelho

Fica a dúvida no ar...

Tanto espelho! Quanto espelho

Fica ainda por quebrar?

 

Mais um espelho que se quebra,

Mais um passo... e nunca acaba!

A vida é feita de espelhos.

Espelhos novos, cacos velhos

Quando uma vida se encerra...

 

Quando a luz se espelha em nós,

Quando, à hora da partida,

Nos sentimos menos sós,

Quando o espelho, já quebrado,

Separa o corpo da alma

E, depois, medo e pecado

Dão lugar a outra calma,

Já o espelho se quebrou

Já os cacos se esqueceram

Reflectindo o que ficou

Das coisas que nos prenderam...

 

Quantos cacos por aí

E nós sem nos darmos conta...

Quanto espelho eu já parti,

Quanta fachada de montra?

 

Quebrado o último espelho

Fica a dúvida a pairar...

Tanto espelho! Quanto espelho

Fica ainda por quebrar?

 

 

"Vida" - Pablo Picasso, 1903

 

Nota - Esta alegoria foi concebida como um grupo simbólico de significado aberto e trata-se de uma homenagem ao seu amigo Casagemas - o personagem masculino seminú - que, no ano anterior se suicidara por amor, em Paris.

In "Grandes Pintores do Século XX", Edições Globus, Barcelona, 1994

 

Imagem retirada da internet

 

Ainda "quebrando o espelho" no http://velucia.blogs.sapo.pt/

 

 

 

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Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

QUEBRANDO O ESPELHO...

Quebro a cara e fico em pé,

Quebro o espelho e jogo fora!

Fui eu quem quebrou, até,

A Caixinha de Pandora...

 

Quebro a cara nesta dança...

Que me importa? A dança é minha!

Quebro a cara, colo a cara,

No tempo que me separa

Do tempo de ser criança...

Colo o espelho que quebrei.

Colo, mas volto a quebrar!

Quantas vezes me não dei?

Quantas me quis retirar?

 

Quebro a cara e fico em pé,

Quebro o espelho e jogo fora!

Fui eu quem quebrou, até,

A Caixinha de Pandora!

 

Quebro o espelho, arraso o Palco...

Colo a cara e quebro o espelho,

Quebro o espelho e colo a cara...

Quanto temp me separa

Dos vestidos de tobralco?

Colo o espelho que quebrei

Só p`ra voltar a quebrar...

Quantas vezes me não dei?

Quantas me quis retirar?

 

Quebro a cara e fico em pé,

Quebro o espelho e jogo fora!

Fui eu quem quebrou, até,

A Caixinha de Pandora!

 

Maria João Brito de Sousa - 18.11.2015 -14.13h

 

 

"Joie de Vivre"- Pablo Picasso

Imagem retirada da internet

 

NOTA - Hoje toda a gente vai "quebrar o espelho" no http://velucia.blogs.sapo.pt/

Estão todos convidados a partir o vosso espelho!

 

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